cor da luz
que dá vontade de só ver. Eu vi a luz que dá vontade
de só
ver
Ontem, não sei por que, parei de ler uma crônica da Clarice Lispector para refletir sobre o tamanho da felicidade da pessoa que, pela primeira vez, colocou idéias num papel, uniu em folhas sequenciadas e nomeou a revolucionária invenção:
livro.
Até então, desconfio que as idéias eram escritas em longos pergaminhos. Ou seja, uma folha enorme, escrita de cima para baixo, que ia sendo enrolada, enrolada; quanto mais enrolado fosse o escritor.
Pensando em termos de discurso, acho que o livro tem algumas vantagens (mas não quero aqui defender que voltemos a lavar as roupas no tanque) em relação à verticalidade dos pergaminhos ou sites na internet.
Pula-se de uma página para outra com a felicidade de quem dobra uma curva pedalando e vê uma praia desconhecida despontar. Virar uma folha é como subir um degrau, avançar rumo ao desfecho mortal de um fim.
(Não se pode frear o fim de uma vida como se pode frear o fim de um livro).
Eu gosto do som sutil das páginas viradas - farfalhar das asas em vôo.
Do cheiro das folhas de papel: meu sonho de infância era ser dono de banca de jornal.
Do tato. As páginas precisam de nossas mãos, todos os livros foram escritos pelas mesmas mãos.
O que mais me deslumbra: seu tempo.
Cada livro tem um ritmo, mas não é disso que estou falando. Refiro-me ao tempo do livro. Livros não são escritos para serem lidos de uma vez.
Livros são feitos para serem degustados aos poucos: um pedaço de torta alemã ou uma noite ao lado da pessoa amada.
Um livro inunda uma tarde, uma noite, inunda uma semana. Alguns inundam meses.
Livros molham e secam. Livros gostam de se perder, mas acho que gostam mais de serem encontrados. Livros podem não ter valor algum como podem ter o maior valor do mundo. Livros bons não envelhecem, assim como idéias boas também não.
O som que faz o pensamento
Na procura da palavra que
diga.
à procura do som que exprima
Prima por não deixar
Ser vista.
Tocada, ela gosta
(precisa!)
Vir ao mundo pelo
canto.
O som que a cuca precisa
pra cuspir
no mundo
tanto
sentido.
Sentido
da superfície
ao fundo
do umbigo.
até a razão
tem seus 5 minutos
de romance
com razão
senão viver
seria
um relance quase mudo
razoavelmente
em vão
Do que eu preciso
pra escrever minhas
poesias...
Um pouco
de vida, somente
um pouco
de vida
contrapartida:
dou um pouco
da minha
ralo-tempo
todo dia
é assim
tendo vida em mim
tá feito:
sobra pra poesia