domingo, 14 de março de 2010

carta aberta


no cheiro do

pescoço da menina depois do amor

 

eu sinto a morte

vivendo a vida

um pouco dela, essa

menina


(morte é palavra feminina)


amor é arte

eu sou você

não é ciência


fazem cinema

minhas mãos

nas costas dela

 

o melhor poema:

dedos descem pela costela

eu-lírico nos seus ouvidos

verbos de vento

sem tempo

sem som


sábado, 6 de março de 2010

da rua

O fim da festa me deixou órfão da rua. Mas não de qualquer rua. Sou um órfão da rua do carnaval.

Aquela rua que se fantasia com a sua essência mais pura só para nos lembrar a razão da sua existência.

Com a palavra, o maior poeta da rua de todos os tempos e de todas as ruas, João do Rio:

 

“Hoje é mais amargo o riso, mais dolorosa a ironia, Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua.

(…)

 

A rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor humano na argamassa do seu calçamento. Cada casa que se ergue é feita do esforço exaustivo de muitos seres, e haveis de ter visto pedreiros e canteiros, ao erguer as pedras para as frontarias, cantarem, cobertos de suor, uma melopéia tão triste que pelo ar parece um arquejante soluço. A rua sente nos nervos essa miséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas. A rua criou todas as blagues todos os lugares-comuns.

(…)

 

Para compreender a psicologia da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flâneur e praticar o mais interessante dos esportes – a arte de flanar. É fatigante o exercício?

 

Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem.

(…)

 

É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico.

 

(…)

 

O flâneur é ingênuo quase sempre.

(…)

 

O balão que sobe ao meio-dia no Castelo, sobe para seu prazer; as bandas de música tocam nas praças para alegrá-lo; se num beco perdido há uma serenata com violões chorosos, a serenata e os violões estão ali para diverti-lo. E de tanto ver que os outros quase não podem entrever, o flâneur reflete. As observações foram guardadas na placa sensível do cérebro; as frases, os ditos, as cenas vibram-lhe no cortical. Quando o flâneur deduz, ei-lo a concluir uma lei magnífica por ser para seu uso exclusivo, ei-lo a psicologar, ei-lo a pintar os pensamentos, a fisionomia, a alma das ruas. E é então que haveis de pasmar da futilidade do mundo e da inconcebível futilidade dos pedestres da poesia de observação...

Eu fui um pouco esse tipo complexo, e, talvez por isso, cada rua é para mim um ser vivo e imóvel.

(…)

 

Qual de vós já passou a noite em claro ouvindo o segredo de cada rua? Qual de vós já sentiu o mistério, o sono, o vício, as idéias de cada bairro?

(…)

A alma da rua só é inteiramente sensível a horas tardias.

(…)

 

Talvez que extinto o mundo, apagados todos os astros, feito o universo treva, talvez ela ainda exista, e os seus soluços sinistramente ecoem na total ruína, rua das lágrimas, rua do desespero – interminável rua da Amargura.”

 

João do Rio em “A alma encantadora das ruas”, 1908. 

Texto completo em:

http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bn000039.pdf

 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

cinzas de cor

peguei

o bonde do destino

pulei

de vagão em vagão

fiz da euforia

um hino

conheci

uma princesa de rosa

de tanto cantar fiquei rouco

meu suor fez

salgado o

chão

 

o dia a se fantasiar de noite

a noite a se fantasiar 

de dia

tristeza com chapéu de alegria

a alegria por si só

fantasia

  

captei o princípio

da rua

andei do início ao fim

 

eu passei pelo bloco

ou foi o bloco que passou por mim

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Iludere carnavalis rebolation

Um pouco de você

pros outros

já e muito de você

 

(entenda que neste bloco já não há espaço para a desilusão)

 

10 minutos de alguém

é um universo

acredite

 

(e tudo o que é desconhecido pode ser guardado no bolso)

 

não tire retratos

vista seus olhos;

 

é  impossível fotografar a neblina da festa

domingo, 7 de fevereiro de 2010

É que eu vi um carnaval de caixa e zabumba. O coro eufórico das pastoras, já pensa na próxima, emenda naquela, fechando os olhos pra escutar melhor. E é bloco porque é bloco de ato, espaço fica pequeno pra tanto corpo descalço. Quem combinou foi o acaso,  sem pensar no fato, pelo simples instinto de combinar os lados. Se fantasiou de rei e resolveu brincar. Fez juntar a caixa com zabumba,  as pastoras com as ovelhas, novas e velhas, ovelhas brancas e cinzas e negras. Quem chega pára pra ver aquela união estável. Um rio fluindo numa poça, esse bloco que desfila e canta

 parado:

“sintonia do amor

sintonize agora por favor”

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

saudades banais

pela madrugada

chutar uma amêndoa como se fosse uma bola

pra testar quanto tempo

se leva a mesma amêndoa

com os pés pela estrada

 

se prende a um ponto amarelo

mais cedo ou mais ou mais tarde

se descasca e rosa

 

te leva

essa amêndoa sem rumo

pensa agora só no 

caminho

(a

cabeça baixa

mirando

o vazio

atenção difusa na

estrada parada

e só 

o que gira

é amêndoa)

 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Da porta

quero ser a dobradiça

 

me dobro

na opção  em

aberto de me fechar

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